25.1.09

Diário de uma combatente (pra quem gosta de post comprido)

Quinta-feira, 20h32

Já dizia o meu sábio pai: mulher é que nem índio, quando se pinta é porque quer guerra.

Djones em frente ao espelho. Corretivo, sombra, outra sombra, outra sombra, lápis, outro lápis, rímel, outro rímel, pó, blush, gloss. Eu me preparava para a guerra. Papai tem razão.

Uma colega tinha comentado comigo dias atrás sobre o astrologyzone.com, site de horóscopo de uma astróloga parece que famosa. Lá fui eu ler as previsões para janeiro no meu signo. Não que eu acredite piamente nessas coisas, mas sempre é bom dar aquela conferida, mesmo que cinco minutos depois eu já esqueça de tudo o que estava escrito.

Entre muito blá blá blá, dizia e repetia que dia 22 seria um dia especial pra conhecer alguém "if you are single". Dizia que eu tinha que estar "out and about" porque Urano ia entrar na casa de Netuno (ou era ao contrário? Ou era Saturno? Sei lá) e isso era a casa do "true love". Que eu tinha que sair, que as estrelas conspiravam, que os anjos abençoavam, que a umidade do ar seria ideal, que estava tudo ao meu favor pra conhecer alguém bacana.

Lá vou eu/ Lá-vou-eu/Hoje a festa é na avenida, cantava eu com os meus botões - ou seria com o decote? - enquanto me arrumava. Já havia convocado três companheiras de batalha, uma delas já retirada dos fronts por ter um macho pra chamar de seu há anos, mas que de vez em quando nos acompanha pra bater aquele papo amigo e dar risada.

Dia 22. Out and about.

21h27

Chego no primeiro bar, elas já estão lá. Cheio de lugar vazio, como diz uma das combatentes. Um ou outro perdido de camisa e gravata com olhares lascivos na nossa direção, balbuciando "eh garota" quando a gente passava. Comecei a desanimar. Bosta de horóscopo.

22h03

Procurando outro bar nas redondezas, a pé. Uma mesa de gatinhos em um, eeeh brasileras quando passamos. Mas aí a gente faz o que? Pára na mesa e fala "isso, somos brasileiras, vamos sambar?" Não rola. Mais desânimo. Horóscopo de merda. Me fez gastar maquiagem à toa.

22h15

Decidimos pegar o Djones-móvel e ir a outro bar, onde meses atrás fui roubada e foi toda uma odisseia (sem acento, seguindo as novas regras de ortografia).

22h30

Chegando ao bar, digo ás companheiras de batalha: haha, imaginem que engraçado se encontro justamente o cara que beijei aquele dia? Pois bem, olho pra frente e quem está lá? O próprio.

Olhei apertando os olhinhos com cara de "te conheço de algum lugar". Ele fez o mesmo. "Vem cá, você não é o fulano?" "Sou sim". "Afe... tchau". E entrei no bar. Não era a isso que o horóscopo se referia, né? Espero.

22h33

Dei aquela olhada ao redor. O radar não apitou. Bar meio vazio. Janeiro em Buenos Aires é complicado, negada viaja de férias. Mas esse horóscopo, hein?

22h51

Vamos para o andar de baixo do bar. Vejo o fulano da outra vez passar, nossa companheira fora de combate elogia os dotes físicos do mancebo. "Bobo mas gato, né? Não pego canhão, baby", respondi.

22h55

"Gente, pelamordeDeus, tem um cara muito gatinho olhando pra mim. Me ajudem, tô com vergonha".

Pois é. Um sorriso. Uma altura - algo raro nesta Guliverlândia que é a Argentina. Uns olhinhos. Sabem quando você olha pra pessoa, a pessoa olha pra você e dá um negocinho por dentro, umas luzinhas piscam, o radar apita freneticamente e não há mais ninguém ao redor a não ser aquele ser sorridente?

Eu olho. Ele olha. Eu olho. Ele olha. Olho. Olha.

23h02

Os amigos do rapaz - eles eram 4, como nós - começam a se mobilizar pra vir falar com a gente.

23h03

Eles chegam. O mais feioso, e portanto o que tem que fazer mais esforço pra ser simpático, chega todo pimpão, perguntando de onde a gente era e toda a patacoada de praxe. Meu rapaz me olhando. Eu olhando pra ele. O feioso advertiu que ele, apesar de todo aquele tamanho, não estava falando muito porque era tímido.

23h04 - 1h00

Ok, pra resumir. Papo vai, papo vem. Eu vou direcionando a atenção pro meu rapaz até que nos deixam sozinhos conversando. Uma das combatentes é cortejada (amei a palavra, nunca tinha usado) por um dos amigos, que aliás é brasileiro de nascença e foi o pretexto pra eles chegarem ni nóis.

Nossa terceira combatente fecha a cara, já que não se interessou por nenhum dos outros dois, que eram o feioso e um sósia de Jesus Cristo. A companheira fora da batalha engata uma animada e desinteressada conversa com os dois desprovidos de harmonia estética, já que não queria pegar ninguém mesmo e eles eram tão bonzinhos.

Meu rapaz tem praticamente a mesma ascêndencia que eu. Rússia, Bulgária, Ucrânia, era tudo URSS mesmo. Por parte de pai. Italiana pela de mãe. Meu rapaz adora idiomas, como eu. Meu rapaz adora viajar, como eu. Meu rapaz adora chocolate. Meu rapaz é tímido. Se ele falasse que era apaixonado por automobilismo, eu começava a cantar caaaarne e uuunha/ aaalma gêmea/ baaate coraçããããão ali mesmo e casava no dia seguinte.

A conversa estava boa, mas era hora de dar tchau, que nem os Teletubbies (lembram? "É hora de dar tchau. TCHAAAAUUU!! com voz bem fininha). Dia seguinte era dia de branco (verdade que essa expressão é racista? Mas como, se eram o escravos negros os que mais trabalhavam?).

A combatente que engatou conversa com o brasileiro estava aos beijos, o que já era um bom resultado. Áquela altura eu estava conversando com todos os outros personagens da história, não só com o meu rapaz.

Todos fomos embora. Na porta do bar, nos despedimos. O brasileiro foi levar a soldado beijoqueira em casa. A da cara fechada pegou um táxi. A fora de batalha ia comigo. Não beijei o meu rapaz, embora a vontade fosse de pular no pescoço dele.

2h30 - 8h15

Sono da beleza.

9h15 - 18h30

trabalhotrabalhotrabalhotrabalho

18h35 - 23h07

Enrolação. Cachorros da vizinha latindo de trilha sonora. Inferno. Pensamento voando. Geeente, adorei aquele rapaz. Mas hoje é nóis de nuevo que é dia de festa, aniversário de um querido colega de trabalho.

23h07 - 24h15 (sexta-feira)

Já dizia o meu sábio pai: mulher é que nem índio, quando se pinta é porque quer guerra.

Djones em frente ao espelho. Corretivo, sombra, outra sombra, outra sombra, lápis, outro lápis, rímel, outro rímel, pó, blush, gloss. Eu me preparava para a guerra. Papai tem razão.

O dia anterior deu resultados que prometiam. Mas nada garantido. Ainda sou brasileira, sou solteira, sou guerreira, quer mais o quê. Se bem que estava sussa, ia pelos amigos mesmo. Juro.

24h45 - 4h30

Aniversário. Abraços. Amigos queridos. Gente que não olha pra sua cara no escritório meio bêbada e contando suas agruras como se fosse pra amiga de infância, pedindo conselho e tudo. Risadas. Fofocas. A gente metendo a boca na namorada do aniversariante, muito da desconjuntada - e é a definição perfeita, des-con-jun-ta-da - , sendo que ele poderia ter coisa melhor como nós bem sabíamos. Fotos. Caretas.

Começam aquelas conversas que a gente só tem com amigos queridos. Um diz que gosta de mulher "pulposa". Eu gosto de caras de ombros largos e queixo quadradinho. Ele diz que mulher que vai com muita sede ao pote na cama, que começa a se mexer que nem uma desesperada quando ainda não é hora, não é legal. Eu conto da pior ficada da minha vida, exemplificando que homem afobado demais tampouco é bom.

Eu penso "poxa... deve ser bom ficar com ele então. E é tão fofo. Pena que é enrolado com alguém.". Mas foi só um pensamento solto. Ele é meu amigo e amigos não têm pinto. Né? É, Djones.

4h35

Garçons passam recolhendo tudo. Mas a conversa estava tão boa. Somos 4, dois rapazes e duas mulheres, uma delas a que vos fala. Mas nada a ver. Somos todos amigos, colegas de trabalho.

Chicos, y si vamos a otro lado? Dale!

4h45 - 5h37

Outro bar. Fechado.

Outro. Miado.

Terceiro, uma baladinha after hours. Ok.

5h42 - 7h17

Chegamos. Sentamos. Um dos rapazes e minha colega vão pegar uma cerveja. Eu fico batendo papo com o outro, o único argentino entre nós. Era o personagem do pensamento solto.

Em certas oportunidades, eu já havia notado que ele ficava me olhando. Eu achava que era coisa da minha cabeça. Eu já tinha ficado vendo fotos dele e pensando "que graça... e tão figurinha... tão divertido... pena que é enrolado com alguém. Fora do baralho."

Então lá estávamos nós, o dia amanhecendo e a gente ali nem sei por quê. Da minha parte, juro que era vontade de conversar, de me divertir, era tão gostoso estar fora do ambiente de trabalho com eles todos.

Mas estávamos só eu e ele.

Até que não sei qual era o assunto e ele diz: por ejemplo, ahora yo te daría un beso. E me agarra.

Viro a cara, digo noooooo!!!

Por qué no?

Porque no! Sos mi amigo!

Y qué? Amigos se pueden besar. Es lindo que la gente se bese! Dale... dale... dale...

Já falei que a palavra "dale" tem poder sobre mim. Quatro dale e eu faço quase qualquer coisa. Dale acompanhado de beijinhos, carinhos e palavrinhas bonitinhas... e o cara é fofo...

Eu me rendo.

Beijo beijo beijo beijo

Sos tan linda, pero tan linda... me contaste que sos insegura, no podés ser insegura... sos muy linda, y te lo digo por muchos argentinos que creen que sos linda *beijo* y por muchos brasileros también *beijo* ah, toda Latinoamérica te ama! *beeeeijo*

Quem resistiria, né? Eu também sou filha de Deus. Dar umas bitocas em um amigo, o que é que tem? Aliás, primeira vez que eu pego alguém do trabalho na vida. Poxa.

8h12 - 14h30 (sábado)

Sono.

Hoje vou sair com o meu rapaz. Que delícia! Ontem ele puxou conversa, nos falamos o dia inteiro pelo MSN. Adoro ele, adoro.

Puts... primeira vez na vida, dois em menos de 24hs. Inédito. O recorde tinha sido um no domingo e um na sexta. Tsunami no sertão, minha gente!! Astrologyzone.com é ciência exata.

22h02

Jááááá dizia o meu sábio pai: mulher é que nem índio, quando se pinta é porque quer guerra.

Djones em frente ao espelho. Corretivo, sombra, outra sombra, outra sombra, lápis, outro lápis, rímel, outro rímel, pó, blush, gloss.

Desta vez não era guerra - e quando eu digo guerra não é nem que saio por aí como franco-atiradora, aliás eu pegar alguém é até um evento raro. É guerra pra ver se acha alguém minimamente decente.

E ele parecia ser muito mais que isso.

23h00

Hola! Qué tal? Bien, vos? Bien! Perdón pero no había mesa mejor... Nooo no te preocupes, está perfecto! Y, qué contás?

23h03 - 2h35

Conversa conversa bebida pizza conversa conversa conversa.

Ele é lindo. Adoro ele.

2h40 - 3h00

Trajeto rumo à casa dele. Na boa. Quer dizer, já estava mais que na hora de rolar bitocas, né. Ai, tô nervosa. Socorro. Adoro ele.

3h00 - 3h57

Conversa conversa conversa

No querés subir a mi departamento, así lo conocés? Ah, no, ya es tarde...

Bueno.

Bueno.

Bueno.

Bueno.

Bueno, sos muy timido...

E meti-lhe um beijo na boca. Orra. Eu também sou tímida, até a hora em que não aguento mais.

3h57 - 5h12

Beijo beijo beijo beijo beijo beijo beijo.

Adoro ele.

5h12 -5h37

Bom, então tá, vou indo porque... (tento ligar o carro. Nada) já é tarde e... (de novo. Nada. Só barulhos estranhos).

Ay ay ay!

Burra. Quem mandou deixar os faróis ligados, e ligar a parte elétrica pra ligar o ar-condicionado. Descarregou a bateria do carro. E agora, quem poderá nos ajudar?

Ligo no serviço 24 horas da garantia. Señora, el auto ya no está en la garantía. Que beleza, minha gente!

Tento de novo ligar. Nada. De novo. Nada. Naaaada!

Vamos pra um posto de gasolina aqui perto ou ver se a oficina que tem na outra rua está aberta. Não deve estar, mas de repente, né.

Adoro ele.

Saímos do carro, um monte de caras que estavam no kiosco (instituição argentina, banquinhas que vendem guloseimas, cigarros, camisinhas, bebidas, etc etc) perguntam se queremos ajuda.

5h44 - 5h49

Djones em pleno San Telmo sentada no seu carro sem bateria sendo empurrado por uns cinco caras, um deles o meu rapaz, coitado. Nada.

Um cara se oferece, assume o banco do motorista - era vizinho do meu rapaz. Segunda tentativa, eu olhando e eles empurrando. Pegou!!!! Bueno, nos despedimos acá. Qué primera cita, eh!

*beijo beijo beijo*

Adoro ele.

6h20

Mensagem: llegaste bien a tu casa?

Adoro ele.

7h30

Vou dormir. Sorrindo. Que fim de semana!!! Nunca na história deste país, como diria nosso presidente, eu tinha reunido tanta história de rapazes pra contar em tão pouco tempo. E nunca na história deste país eu tinha tido um pressentimentinho tão bom em relação a alguém em tão pouco tempo. Ai ai ai... eu mereço, porra! Deus, ou o que quer que haja lá em cima, por favor. Eu já comi o pão que o diabo amassou e o anjo mau da solidão botou no forno. Obrigada pelo fim de semana de fartura. Tsunami no sertão. Mas eu quero alguém minimamente decente. Tá ouvindo? O outro foi coisa de momento, foi chuva de verão, como dizia a canção. Esse, o meu rapaz... parece que... não sei... fica esperto com ele, você aí de cima, tá? Dá uma forcinha aqui pra mim, pode ser? Obrigada.

Será que o horóscopo tinha razão?

Bom, eu vou é dormir que o dia já amanheceu.

10:57 PM - 0 comments

19.1.09

Update

Recebendo hóspedes, viajando, aquela coisa toda.

*****

Em menos de um mês vai fazer seis anos que moro em Buenos Aires. Seis anos.

Tenho que admitir: já cansei. Cansei de nada funcionar direito - NADA. Cansei da malandragem porteña (conhecida aqui como "viveza criolla"). Cansei do povo chatinho. Cansei dos caras enrolados. Cansei do trânsito entre o carioca e o animalesco. Cansei.

Minha mãe estava aqui semana passada. Diz que morre de saudades daqui, mas não de São Paulo. Lá, ela nem se sente mais em casa. Aqui, sim.

E por cada lugar que passávamos, ela dizia "olha que lindo", "como reformaram aqui, ficou bom!", "que saudades daqui", e tudo o que eu conseguia fazer eram comentários amargos. Em San Telmo - lugar que eu acho lindo, adoro os prédios antigos - ela dizia "olha que lindo este prédio" e eu respondia com "sim, mas olha quanto lixo na calçada!".

Pior é que era verdade. No Centro e regiões próximas, como San Telmo, sacos e sacos de lixo se acumulam nas esquinas, não sei se por porquice, falta de opção ou ineficiência do sistema da cidade. Talvez um pouco dos três. Aí vêm os "cartoneros" (catadores de papel) e esparramam tudo na procura por papel. Uma tristeza.

Antes eu nem lembro como reagia a esse tipo de coisa. Acho que achava normal. Na minha cidade natal as coisas não são muito diferentes, convenhamos. Mas quando a gente vê que há outras formas possíveis e melhores de vida, de sociedade, de comunidade, a gente começa a reparar melhor nas coisas e dá uma impotência, uma melancolia, sei lá...

Bom, por mais cansada que eu esteja da Mulletslândia, este ano ainda fico aqui. Pra terminar o mestrado, ver como as coisas evoluem no trabalho e começar a tentar outras coisas profissionalmente. Haja paciência...

*****

O primeiro idiota de 2009? Será?

Foi assim (eu viiii vocêêê passaaaaar por miiim/ e quaaaando pra você eu olhei/ Logo me apaixoneeeei - quem lembra dessa música? Era de alguma novela dos anos 80, de alguma cantora obscura): no sábado, dia seguinte ao que vi o vizinho de cunversê com a loira dos cachorros, recebi uma mensagem dele à meia-noite perguntando "e aí, vão fazer alguma coisa?".

Ué! Das duas uma, ou ele é esquizofrênico ou não recebeu nenhuma das minhas mensagens, o que não seria impossível, afinal estamos na Argentina e aqui nada funciona direito, muito menos telefonia celular nas festas de fim de ano. Acontece que eu tinha ido jantar e já tinha voltado pra casa, não ia sair nem que Jason Button (piloto de Fórmula 1 bem delícia) viesse peladinho me chamar, então resolvi não responder e ligar pra ele no dia seguinte, pra esclarecer, porque por mensagem claramente a coisa não estava rolando.

Liguei. Ele realmente não recebeu nenhuma das duas mensagens. Disse que mandou duas mensagens durante a balada do ano-novo. Também não recebi.

Foi simpático, mas meio breve. Não sei se estava em algum lugar, vai saber. Pediu pra eu mandar mensagem pra ver se chegava. Mandei. Ele respondeu, a gente se fala, beijo.

Eu viajei, voltei, não nos falamos mais. E isso era tudo até ontem.

Os malditos cachorros latindo. Como latiram por horas no sábado. Agora de novo, no domingo. Latindo latindo latindo. Em dado momento, saí na varanda pra tentar os meus SSSSHHHHH, que se provaram inúteis para calar cachorros mas úteis para conhecer vizinhos suculentos. Já seria alguma coisa. E eis que vejo ele, o vizinho martin-mullets-chavequeiro (descrição que serve para pelo menos 43% da população jovem e masculina portenha, segundo o DataDjones), pedindo encarecidamente para o rotweiler calar a boca, tentando um diálogo cara-a-cara com a fera enquanto o pintcher latia a plenos pulmões, mais do que estava latindo antes.

Meniiiina do céu. Meu deu um pula-pula no coração, não sei por quê. Eu tenho que fazer alguma coisa. Tenho. Just do it. Dale. Mandei uma mensagem: HACELOS DEJAR DE LADRAR PLEASEEEE. Traduzindo: faça-os parar de latir.

Uns 32 segundos depois, ele me ligou. Todo florido. Fizemos planos para matar os cachorros (ele tem uma arma de ar comprimido, acho que pelo menos o pintcher a gente consegue liquidar com ela, mas ele se nega), nos demos tchauzinho pelas nossas varandas, ele me perguntou o que fiz no fim de semana, contou que tinha ficado doente. E só! Ele fala duas ou três coisas e já vai pro "bom, então tá" de desligar, sabem?

Que saco. Até hoje não sei muita coisa dele, a não ser que:

- ele é garbosinho
- tem um carro bonito
- um monte amigos chavequeiros com mullets como ele
- mora na minha rua
- tem uma TV de plasma (dá pra ver aqui de casa)
- e uma cadeira na qual pendura roupas
- e um armário de plástico na varanda (???)
- e uma bola de futebol
- ele acabou de desligar a TV, provavelmente pra ir dormir.

Isso não é suficiente!

Não sei se o interesse dele é sair de galera, tipo eu e minhas amigas (brasileiras, claro), ele e os amigos, e ver quem se arranja com quem. Negada tem mania de achar que a gente é PIMP de brasileiras, pra agitar algumas pra geral. Odeio. Não sei se o interesse é na minha pessoa. Se não houvesse interesse algum em nada, pra quê ligar assim tão prontamente, né?

Sei lá. Se homem é estranho, argentino é estranho e meio. Já vi que vai ser enrolado o negócio, se é que vai ter algum negócio.

Ah, e a história da loira? Bom, na guerra estamos todos, né? Eu não teria hesitado se algum outro vizinho delícia tivesse me dado bola naquele dia. Então...

9:59 PM - 0 comments

2.1.09

O primeiro idiota de 2009

Geeente. Achei que 2009 tinha "começado beeem" no bom sentido. Mas "começou beeeem" dito com ironia, mesmo.

Não obtive resposta da mensagem que mandei pro tal vizinho durante a balada de ano novo. Vale lembrar que tal vizinho pediu o meu telefone e ligou pra eu ficar com o dele, todo todo. Vale lembrar que vizinho e seus amigos queriam que a gente fosse na festa pra qual eles estavam indo. Enfim, vale lembrar que vizinho e seus amigos é que vieram de paquerinha pra cima de nós.

Como não tinha certeza se a mensagem tinha sido enviada mesmo ou não, já que tentei várias vezes e não consegui, achei que valeria a pena mandar outra ontem de noite. Nada oferecido, nada insistente, apenas simpático. "Oi, te mandei uma mensagem ontem mas não sei se chegou. Como foi a festa? Beijos". Só isso.

Nada.

Pouco depois, estou passando pela sala quando noto que ele está na varanda do apê dele. Não saí na varanda porque estava com um pijama de patinhos e descabelada, achei que isso não ia ajudar no processo. Me aproximei um pouco, ainda sem sair, e tive uma agradável surpresa: ele estava batendo o maior papo com a loira dona dos cachorros que latem nas nossas orelhas (e muito mais nas dele, já que a varanda dele fica colada na dela, só um andar acima).

Há alguns dias tive o prazer de cruzar com esta loira - que nem bonita é - enquanto seus dois monstrinhos bebiam água da fontezinha do meu prédio e ela conversava com uma amiga. Perguntei se era ela que morava no prédio em frente, ela disse que sim e eu pedi que, por favor, não deixasse mais os cachorros sozinhos porque eles latiam muito muito muito e incomodavam a rua inteira. Ela fez aquela cara de soberbia que só uma argentina "cheta" (patricinha, riquinha, metidinha) sabe fazer e disse que todos os cachorros da rua latiam. Eu disse que sim, mas os únicos que passavam o fim de semana INTEIRO latindo eram os dela. Eu disse, ainda, que pedia isso na boa, que eu adoro cachorros e que justamente por isso estava pedindo pra ela cuidar melhor dos dela, porque eles sofriam também. Ela foi se afastando aos poucos em direção ao prédio dela e foi meio que dizendo que não ia fazer nada, com aquela cara de idiota. Ou seja, foi muito mal-educada e desagradável, sendo que cheguei com um sorriso nos lábios pra falar com ela.

Quando comecei a falar com o tal vizinho no ano novo, falamos do dia dos cachorros e eu comentei que tinha encontrado ela e feito esse pedido, e que ela foi "re mala onda" ("mala onda" é ser mal-educada, chata, grossa, enfim, um comportamento bastante comum neste país). Ele disse "ah é, mala onda mesmo, é uma loira, né?" e xingou os cachorros também.

E agora ele estava lá, de conversê com ela. Trocaram celulares e tudo. Não agüentei, fui me trocar e saí na varanda. Ela me viu. Ele, não sei. Não vi ele olhando em minha direção em nenhum momento, tão entretido que estava com a vaca. E não respondeu minha mensagem.

Meu.

Primeiro: alguém pode me dizer quando foi que homem começou a ignorar mulher? Até entendo se isso acontece quando a mulher fica em cima, ou, sei lá, quando é uma baranga extremamente baranga (não que isso justifique porque acho que todo mundo merece um mínimo de respeito). Mas você vai, investe, se dá ao trabalho, e depois IGNORA? Meu, responde qualquer coisa, fala "foi bacana a festa sim, feliz 2009, abraço". QUALQUER COISA. Mas não IGNORA. Meu, eu não ignoro nem atendente de telemarketing. Seja grosso comigo, me dê um fora sensacional, mas não me ignore. Fico possessa.

Segundo: ué, não xingou a mina e os cachorros horas atrás? E agora tá todo pimpão pra cima dela??? O que é isso, política de boa vizinhança?

Quer saber? A loira nojenta e o mullets chavequeiro. Bonito casal, se merecem. E se o cara teve essa atitude comigo, boa coisa não é. Me livrei. Babaca!

Mas 2009 já veio com a primeira palhaçada do ano logo no primeiro dia! Feliz 2009, hein!

12:29 PM - 0 comments

1.1.09

La llegada de dos mil nueve para Djones

Aí eu fiz o reveillón em casa. No salão do prédio, na verdade. Compramos umas massas pra comer, umas breja pra quem é de breja, umas cocalaite pra quem é de cocalaite (hola, soy yo), tudo tranqüilinho. Quatro casais e 3 solteiras, contando comigo. Todo mundo brasileiro, uma alegria.

Maaas antes do convescote passei por momentos dramáticos. Estava eu sozinha em casa, 7 da noite e o povo ia chegar ás 8. Já tinha tomado banho, lavado a juba, era só passar meus vários tons de sombra, botar o vestidinho novo e correr pro abraço. Mas não, eu tenho que fazer merda.

Fui roubar um raviolinho cru da geladeira. Adoro massa crua, vovó quando faz gnocchi sofre com os meus constantes roubos de gnocchis crus. Então, aí abri a porta da geladeira e POF TCHLÁÁÁÁ!!! Caiu uma cerveja no chão. Cerveja por toda a cozinha, que há poucas horas havia sido limpa por Gregory, minha fiel auxiliar do lar. Cacos de vidro no meu pé. O sangue começa a jorrar. Cerveja. Sangue. Sangue na cerveja no chão na cozinha.

Como diz o pagode, aí vem o desespero, machucando o coração. Calma, respira fundo. Sangue. Dois cortes grandes. Cerveja. Chão. Puta que o pariu caralho fodeu o que eu faço tô aqui sozinha e meu pé tá sangrando. Calma. Respira. Precisa estancar o sangue. Calma. Pega o guardanapo, tá aqui. Respira fundo. Consegui.

Fui de sacizinho até o banheiro, limpei a área, fiz um curativo. Pronto, situação 1 controlada.

Situação 2, a cerveja no chão da cozinha. Um rio de cerveja adornado com cacos de vidro e sangue. O que uma pessoa madura, independente e bem-resolvida faz numa hora dessas? Liga pra mãe e chora, claro.

Maman, em outro país e, portanto, sem ter muito o que fazer pra me ajudar, explica, calma, pega o pano, vai ficar tudo bem, faz assim assim e assado.

Limpei a porra da cozinha, mas nisso o povo tava chegando. Tiveram que esperar eu me arrumar - o que demora, até passar todos os tons de sombra...

No fim deu tudo certo, comemos, bebemos, rimos e fomos felizes. Brindamos à meia-noite na piscina do prédio, vendo belos fogos e o incrível desânimo argentino, enquanto cantávamos aos nossos hermanos a seguinte canção, que Tarsila, uma das convivas, ouviu não lembro onde:

Ô joga água que é de cheiro
Confete e serpentina
É pau na bunda
É pau na bunda da Argentina!

Ah, a fraternidade entre os povos.

Mas o melhor ainda estava por vir.

*****

Há duas semanas, quando Polly estava aqui, dois fio das puta de uns cachorros de um prédio em frente ao meu não paravam de latir. Era o sábado in-tei-ro latindo, um pintcher e um rotweiler numa bonita sinfonia de latidos e latidos e latidos incessantes. Acho que a dona deixa eles sozinhos e dá nisso. Não era a primeira vez que acontecia.

Eu e ela saímos na varanda e tentamos inutilmente fazer os fio das puta calarem a boca, fazendo SSSSHHH SSSSHHHH. Mas nada.

Eis que surge, na varanda de um apê do prédio ao lado do dos cachorros, um espadaúdo rapaz de cuequinha preta e camiseta velha, esfregando os olhinhos com carinha de sono, o mullets despenteado, olhando pros cachorros como que pedindo pelo amor de Deus pra eles calarem a boca. Devia estar tirando aquela gostosa sonequinha da tarde, a coisa fofa, e acordou com os latidos. Aí ele ouviu nosso SSSSSSHHH e olhou, achando que era com ele, mas quando viu que era pros cachorros, abriu os braços olhando pra nós, como dizendo "essas porra desses cachorro, não dá!!". Aí falei "síííí, son insoportables", ele concordou, deu um sorrisinho e entrou.

E eu não parei de pensar nas coxa grossa e no mullets despenteado. Vem cá tirar soneca com a titia, vem. Titia te faz um cafuné.

Até comentei do rapaz hoje (ontem! É que ainda não dormi), antes da festichola do ano novo, quando mostrava o apê pras amigas e comentava sobre os hábitos dos vizinhos que venho observando ultimamente. O da frente, por exemplo, faz churrasco na varanda TODO SANTO DIA no almoço e no jantar (ele não trabalha, não??)

E isso era tudo até que

*****

Duas e pouco da manhã, primeiro de janeiro. Estamos saindo pra ir pra balada. Estamos andando em direção ao carro quando, de um dos prédios em frente, saem uns casais e diversos rapazes de boa aparência, que olham pra mim, Kika e Minikika e já se interessam, assim como nós. As três solteiras, sabem como é, vimos aquele monte de macho e já ligamos o radar.

"Feliz año", falo pra eles. Eles respondem.

Até que sai o último e fecha a porta do prédio.

EPA EPA EPA CONHEÇO ESSE MULLETS!

Só que nisso um outro começa a falar comigo, de dónde sos, vou falando e entrando no carro y adónde van e blá blá blá. Aí vejo o mullets conhecido vindo. "Ei, você não é o vizinho dos cachorros latindo, aquele dia, que a gente fez SHHH??" "Aaah eras vos?? Hola, vecina!" "Hoooola, vecino!!!"

E conversamos, eu dentro do carro e ele fora, o outro falando com Kika ao mesmo tempo, um outro carro cheio de moleque, aquela comoção. Trocamos telefones. Manda mensagem se aonde vocês forem estiver bom, blá blá, a gente se vê, vamos a tomar algo, tchau, beijomeliga.

E ele é cheiroso. Senti no beijinho de tchau. E ele é bem gatinho. E ele é simpático. E tem um BMW série 1. A informação é de uma fanática por carros, não de uma maria gasolina. E como ele chama? MARTIN. Óbvio. Não pode ser Santiago, Pablo, Diego, tem que ser MARTIN.

No fim não consegui mandar uma mensagem pra ele. Nada funciona nesta merda de país, e a telefonia celular, então, menos ainda. Em noite de grande movimento de mensagens e ligações como Dia do Amigo ou Ano Novo, esquece. No fim até apareceu como mensagem enviada mas não sei se mandou mesmo ou se meu celular desencanou e resolveu mentir, porque tentei umas 237 vezes sem sucesso.

Não recebi resposta dele até agora. Não sei se rola, não sei se vai responder, se vou ver de novo, mas meeeu!!! Começou beeeem! Isso porque passei de calcinha velha e cor da pele, o que mostra que esse lance de calcinha é balela (já passei outros revéillons de rosa, vermelho e o caralho a quatro e continuei encalhada).

Depois a balada foi boa, lugar novo, bacana, se vierem a Buenos Aires, aconselho.

Mas voltando ao vecino. Se pá lato eu mesma na varanda, não pra economizar cachorro como diz o ditado, mas pra chamar a atenção do mullets-vizinho-delícia... hehe.

Ah, aproveitando, um 2009 HERMOOOSSSO (com aquele sotaque beeeem argie) pros meus (05) leitores!

7:06 AM - 0 comments

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